domingo, 14 de outubro de 2007

Entrevista com José eduardo Agualusa

Por Luana Assiz
“Há algo marcante entre Brasil e Angola”, diz Agualusa

O escritor angolano José Eduardo Agualusa esteve no Baobá Café Social para lançar o seu último romance “As Mulheres do Meu Pai”. O livro conta a história de uma portuguesa que parte para uma viagem ao sul da África em busca de suas origens. Autodenominado afro-luso-brasileiro, Agualusa defende a integração cultural dos países de língua portuguesa. A definição do autor se explica: escreve para jornais de Lisboa e de Luanda e já viveu no Rio de Janeiro e em Recife. “Há algo marcante entre Brasil e Angola: uma sensação de reconhecimento quando você anda na rua e vê as pessoas, que parecem estar nos dois lugares. E na verdade é um lugar só, estão todos no mesmo espaço”, afirma o escritor, que concedeu à repórter Luana Assiz, através do Portal SNA, uma entrevista exclusiva.
Luana Assiz - O que “As Mulheres do Meu Pai” tem de diferencial em relação aos anteriores?
José Eduardo Agualusa - “As Mulheres do Meu Pai” é bem diferente dos outros livros que escrevi, porque mistura ficção e realidade. É a história verdadeira da viagem que eu fiz pela África que vai alimentando a ficção do romance.

LA - O livro nasceu como roteiro para um filme, mas acabou tornando-se um romance. Como se deu esta transição?
JEA - É, a proposta inicial era um roteiro para um filme, mas quando eu comecei a escrever, vi que eu tinha nas mãos um bom material para romance, então dei seguimento à história.

LA - Você ainda tem planos de transformar essa história em filme?
JEA - O roteiro fica pronto em novembro, mas, na verdade, isso depende da diretora [Karen Boswall], porque para produzir um filme a gente precisa de recursos. É um projeto que depende de muitas outras coisas para acontecer.
LA - “As Mulheres do Meu Pai” aborda a busca de uma memória histórica, ancestral e, ao mesmo tempo, o rompimento de fronteiras para a construção de uma nova identidade. Como é construída a noção de identidade no romance?
JEA - Tem a história da Laurentina, que quer voltar às suas origens na África através da história do pai e ao mesmo tempo, existe a resistência do seu namorado contra a viagem. Na verdade, o livro traz várias identidades. Eu trabalho com o conceito de identidades múltiplas porque é assim que elas devem ser.

LA - Em 2002, você publicou o livro “O ano em que Zumbi tomou o Rio”, no qual você aborda as ações do narcotráfico nos morros cariocas, permeadas por uma consciência política, social e racial dos personagens. Isso é resultado da sua experiência no Rio?
JEA - É engraçado porque quando esse livro participou da Flip [Festa Literária Internacional de Parati], ninguém deu atenção ao tema do racismo, de que eu falava no livro. Se o Caetano Veloso não tivesse chamado atenção para isto, o assunto ia passar em branco. O problema do racismo no Brasil é totalmente ignorado pelas pessoas, é uma ferida intocável. Se você vai a um restaurante caro no Brasil, você não vê negros sendo servidos, como clientes, você os vê trabalhando. Eles estão sempre nos mesmos lugares. É algo que chama a atenção de qualquer estrangeiro. É bem visível a divisão racial aqui. O negro no Brasil não faz parte das elites. A população indígena, também, está totalmente excluída. Isso é um problema sério que o Brasil tem que resolver. Não sei como, mas precisa resolver. Em Angola os negros estão em todos os lugares: nos espaços políticos, nas empresas, em todas as classes.

LA - Ainda sobre esse livro, você faz alusões a ícones da História Brasileira, especialmente do Nordeste (Lampião, Euclides da Cunha, Antônio Conselheiro). Por qual motivo escolheu fazer essas citações?
JEA - Todo livro é uma alegoria, então eu busquei abordar personagens da história popular brasileira, daí surgiram esses nomes.

LA - Quais os autores brasileiros dentro desta temática que se tornaram referências para você?JEA - Gosto muito de Jorge Amado, que foi quem primeiro colocou o negro no centro das histórias. Também costumo ler Rubem Fonseca e João Ubaldo Ribeiro.

LA - Você acha que a literatura brasileira influencia muito os escritores africanos?
JEA - A influência já foi maior. Agora não tanto.

LA - Qual a principal diferença entre o Agualusa à época de “A Conjura” e o Agualusa que escreveu “As Mulheres do Meu Pai”?
JEA - (risos) Nossa! São quase vinte anos! Escrevi “A Conjura”, em 1989, mas acho que não mudou muita coisa. Meus temas de interesse e meus pensamentos permanecem na mesma linha, apenas tenho mais experiência quanto às técnicas de escrita.

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