quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Crescimento urbano irregular sufoca terreiros de candomblé

Por Luana Assiz

“Sem folhas não haveria orixá”. Com esta frase, os ancestrais africanos transmitiram, de geração em geração, a forte intimidade entre a sua religiosidade e o meio ambiente. Uma relação que hoje é prejudicada pelo inchaço das cidades e, principalmente, das periferias. Em Salvador, a perda de área verde dificulta o acesso à vegetação adequada para o seguimento das tradições religiosas, que pregam o uso de folhas nascidas naturalmente.

Segundo Sueli Conceição, bióloga e mestranda em Estudos Étnicos Africanos, a urbanização de Salvador nos últimos 60 anos é responsável pela atual “ressignificação das religiões aricanas”. Ela afirma que “os terreiros tiveram de se adaptar à nova estrutura, criando novas formas de resistência”. É o que acontece em terreiros como o Tanuri Junsara, no bairro da Federação, onde Helena da Hora se queixa da crescimento desordenado de Salvador. “Antes, a gente tinha lugar para pegar folha e arriar ebós aqui mesmo na Federação. Agora, não. Temos que ir em lugares mais distantes: Pituaçu ou Paralela, por exemplo”.

Sufocado por invasões, a comunidade do Dandalunda, na Avenida San Martin, se queixa do uso de bebidas e do barulho nas proximidades da casa, o que atrapalha as atividades do terreiro. Os transtornos causados pela localização fizeram Mãe Diná pensar em mudança. “Ela está analisando a compra de terras em outro lugar onde possamos ter paz e respeito”, diz Conceição, filha do Dandalunda.

Fé sustentável
Uma das últimas reservas de Mata Atlântica em área urbana no Brasil, o Parque São Bartolomeu também é um dos locais preferidos para a realização de rituais de diversos terreiros de Salvador, prática que vem deixando resíduos de oferendas no local. Conceição explica que “tudo o que é feito pelos povo de santo tem base no sincretismo, desde a época da escravidão no Brasil”. Bióloga e frequentadora do Dandalunda, ela realiza um papel híbrido, estimulando a conscientização ambiental na sua casa, mas sem desrespeitar os preceitos da sua religião. “Não posso falar para minha Mãe e para a minha Avó, pessoas mais velhas e experientes, que o modo como elas cultuam os orixás está errado. Nós tentamos substituir o uso de bacias e panelas, por exemplo, por materiais biodegradáveis, mas isso é um processo gradual, lento”, declara.

Baiano nascido no Terreiro do Alaketu, o produtor cultural Aderbal Ashogun promove ações educativas enquanto ativista ambiental no Rio de Janeiro. Entre os seus trabalhos está a Cartilha OKU ABO Espaço Sagrado, que contém dicas de como realizar oferendas, respeitando os rios, matas e o mar. Lançada no ano passado, a publicação já é utilizada em Salvador por alguns templos religiosos, como o Ilê Axé Oxumaré, na Avenida Vasco da Gama, e o Dandalunda. No plano institucional, a cartilha está sendo avaliada pela Superintendência Municipal de Meio Ambiente (SMA).

Debate sobre Turismo Étnico Religioso reúne povo de santo

Por Luana Assiz

Representantes de mais de 70 comunidades de terreiros de Salvador e algumas cidades do interior do Estado se reuniram no Centro de Convenções da Bahia para debater propostas de gestão do turismo étnico religioso. O encontro foi organizado pela Secretaria de Turismo do Estado (Setur), representada pelo secretário Domingos Leonelli, o coordenador de Turismo Étnico, Billy Arquimimo, e o superintendente de Turismo, Celso Zallio. Entre as autoridades religiosas, estavam a Macota Valdina, a Ialorixá do terreiro Axé Abassá de Ogum, Jaciara Ribeiro, Ribamar, do Ilê Axé Opô Afonjá e Anselmo Santos, do terreiro Mokambo. A presidente da Bahiatursa, Emília Silva, e o historiador Jaime Sodré também compareceram ao evento.

Segundo Arquimimo, após o encontro, serão produzidos materiais educativos, como cartilhas e manuais, “e, até mesmo, projetos de lei”. Ele afirma que “existe, antes de tudo, um projeto econômico: queremos aumentar o fluxo de turistas, principalmente os norte-americanos, que somam 41 milhões de negros interessados em turismo étnico”. Em Salvador, as ações da Setur serão de caráter pedagógico, resultando na realização de cursos de capacitação para o povo de santo. Até agora, os terreiros do Bogum e Ilê Axé Opô Afonjá firmaram parceria com a secretaria. Leonelli esclareceu que não haverá investimentos financeiros nos terreiros, mas a ação de “operadores de peso” que “vendam o produto Bahia” no exterior, o que implica a presença de agentes de viagem e empresários negros no mercado.

“Tudo isso pode parecer novidade, mas não é. É uma vontade antiga das casas de candomblé, mas ninguém tem recursos para desenvolver essa proposta”, esclarece o sacerdote Anselmo, que tem como propostas a realização de aulas práticas das Faculdades de Turismo nos terreiros e o intercâmbio entre tribos africanas e os templos religiosos de matriz africanas. “Poderíamos acolher pessoas de tribos africanas por algum tempo e, do mesmo modo, ser acolhidos nessas tribos”, sugere.

Desconfiada dos interesses da Setur em fomentar o turismo étnico, Macota Valdina reivindicou a participação do povo de santo na elaboração dos materiais educativos. “O Tanuri oferece palestras, seminários e apostilas explicativas para turistas. É assim que deve ser, não queremos que estudiosos vão para os terreiros dizer como nós somos. Nós podemos fazer isso”, alerta.

Documentário
Uma série de depoimentos de membros de comunidades religiosas de matriz africana emocionou a platéia. Dirigido por Manoel Passos, o documentário “Povo de Santo” teve sua pré-estréia durante o evento, para um público seleto. As filmagens aconteceram neste ano, com apoio da Fundação Cultural Palmares e do Núcleo Omi-Dùdú, e será lançado em toda a América Latina no dia 23 de novembro.

Moradores do bairro da Liberdade discutem cultura local

Por Luana Assiz

Mais de 60 moradores do bairro da Liberdade participaram da II Conferência Municipal de Cultura, realizada pela Fundação Gregório de Matos. Em pauta, as contribuições da população para direcionar a interferência do governo no local. Em dois dias de programação (15 e 16), a II Conferência também debateu políticas públicas para os bairros da cidade, sendo eles o Subúrbio, Brotas, Itapagipe, Centro Histórico, Federação, o chamado “Miolo Central”, a Orla Atlântica e Liberdade.

Para compor a mesa destinada às discussões sobre o bairro de maior concentração de população negra de Salvador, foram convidados Osvalrizio do Espírito Santo, o diretor do Ilê Aiyê, Paulinho Kambuí, do Instituto Sócio-Cultural Carnavalesco Imbassorá Iyá, Arailton Conceição, responsável pela rádio comunitária da Liberdade, e Darcy Xavier, da Secretaria Municipal de Educação e Cultura.

Segundo Kambuí, três reuniões com a participação de 30 entidades sócio-culturais da Liberdade antecederam o evento. Os encontros resultaram na definição coletiva das principais reivindicações para a II Conferência, entre elas, o apoio ao calendário de festas do bairro. Osvalrizio citou o enfraquecimento das comemorações tradicionais, como a Festa de Reis, o carnaval, o desfile da Independência da Bahia, as homenagens a São Cosme e Damião, entre outras. “Antes, as pessoas ofereciam carurus a quem quisesse entrar em casa, fosse conhecido ou não. As casas agora estão de portas fechadas, por causa da insegurança”, declarou.

Além da reforma de espaços como o Cine Cultural Brasil, foi solicitada a solução de problemas de segurança, infra-estrutura e educação. Segundo Kambuí, os representantes do poder público responsáveis pelo bairro da Liberdade devem procurar as lideranças comunitárias locais para traçar seus planos de atuação no bairro. “A comunidade não tem de se adaptar aos cargos públicos, eles que têm de se adaptar à comunidade”, criticou.

A redução da diversidade de blocos afros, assunto polêmico no debate, foi atribuída à falta de recursos das agremiações, segundo Osvalrizio, que justificou a falta de ensaios abertos do Ilê Aiyê pelo mesmo motivo: “Para fazer ensaios na rua, é preciso pagar iluminação. Falta apoio da prefeitura”. Integrante do Grupo de Teatro Popular Filhos da Rua, Sérgio Santos critica: “O Ilê Aiyê, assim como o [teatro] Vila Velha, devia estar dando resultados em vez de estar cobrando resultados. São instituições que recebem apoio financeiro do governo”, alerta. Santos critica ainda a organização do evento, que na sua opinião não tem a representatividade necessária para a eleição dos delegados estaduais. “A Conferência está vazia. Os fazedores de cultura não estão aqui. Quem participou do evento foram os profissionais e administradores da cultura”, dispara.

Para continuar a discussão, entre os dias 25 e 28 deste mês, haverá a Conferência Estadual de Cultura, em Feira de Santana, onde estarão reunidos os representantes eleitos na II Conferência.

domingo, 14 de outubro de 2007

Nkosinathi Biko participa de Conferência Internacional na Reitoria da UFBA




Por Luana Assiz

No mesmo ano em que o Instituto Steve Biko comemora quinze anos de existência, a África do Sul festeja os trinta anos da morte do líder revolucionário que deu nome à entidade baiana. Como parte da programação especial do Instituto, diferentes segmentos da comunidade negra foram convidados a participar, na noite de ontem (09), da sua I Conferência Internacional, intitulada “Biko! Por que Biko: sua história, seu legado” na Reitoria da Universidade Federal da Bahia (UFBA). Para falar sobre o tema, Nkosinathi Biko, filho de Steve e presidente da Fundação Steve Biko, na África do Sul.


Nkosinathi permanecerá em Salvador durante uma semana, período em que pretende estabelecer diálogos com instituições que promovem ações direcionadas à população negra. “Não estou aqui simplesmente para fazer uma visita, quero trocar experiências. Uma das esperanças é a possibilidade de programas de intercâmbio com o Instituto Steve Biko”, afirma o palestrante, que se reúne hoje com diretores da associação. O diretor do Instituto, Sílvio Humberto, pretende discutir ações afirmativas no encontro, “principalmente ações voltadas para o jovem”, antecipa.


Trinta anos após a morte do Steve, o povo negro sul-africano “tem usado o direito do voto para trazer o povo negro ao poder”, segundo Nkosinathi. Ele considera que o maior desafio hoje é traduzir os avanços políticos em avanços econômicos. Pensando nisso, a Fundação Biko desenvolve, desde 1998, programas comunitários nas áreas de saúde, educação, justiça, economia, arte, cultura e esportes, um trabalho reconhecido em todo o país. “Promovemos a libertação dos jovens da África do Sul. Gosto sempre de lembrar que Steve morreu aos 30 anos, então ele foi um líder jovem, um exemplo para nós”, destaca Nkosinathi.


Aprendiz de Steve, Nkosinathi citou o que o pai chamava de “os ingredientes do espectro racial” como instrumentos de luta contra o racismo na África do Sul. “Precisamos combater duas atitudes: a postura de superioridade dos brancos e a postura de inferioridade dos negros”, explicou. Apesar das desigualdades, o conferencista aponta a existência de ações afirmativas, ainda que tímidas. “Temos mais negros participando da economia atualmente. Algumas indústrias estão reservando cotas raciais. O interessante é que essas políticas são independentes de qualquer imposição do governo”, comemorou.

Bahia receberá R$ 20 milhões na área de segurança pública


Por Luana Assiz



A Bahia receberá R$ 20 milhões para o desenvolvimento de ações na área de segurança pública até o final deste ano. A medida faz parte do conjunto de ações desenvolvidas pelo Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci), lançado na última quinta-feira (04) no Estado. A iniciativa, que integra os governos federal, estadual e municipal, prevê a combinação entre medidas preventivas e políticas repressivas.



Do valor previsto, R$ 12 milhões serão investidos na construção de presídios. A proporção obedece à orientação do governo federal, que pretende criar cerca de 38 mil vagas no sistema penitenciário brasileiro, destinadas principalmente a jovens entre 18 e 24 anos. De acordo com Wagner, “não se trata de construir cadeias, mas de privar a liberdade apenas dos que foram condenados, ao invés de misturar criminosos e pessoas que ainda estão aguardando julgamento”. A proposta do Ministério da Justiça é separar os presos por faixa etária e pelo tipo de delito, reduzindo a quantidade de jovens que aderem ao crime organizado.



Em Salvador, parte dos recursos vai priorizar, inicialmente, os bairros do Centro Histórico, Alagados, Pirajá, São Bartolomeu, São Cristóvão, Mussurunga e Tancredo Neves, em função dos altos índices de violência registrados nessas regiões. Entre as medidas previstas estão a construção de postos policiais, a aquisição de automóveis, a intensificação do policiamento nesses bairros e a instalação de postos de saúde em unidades prisionais. No âmbito das políticas sociais do Pronasci, estão previstos a execução de um projeto educativo sobre direitos humanos e o atendimento jurídico dentro das prisões.



Críticas


Militante do Movimento Negro Unificado, Hamilton Borges questiona a contribuição do Pronasci para o combate aos grupos de extermínio que atacam a população negra. Ele aponta a ausência do tema das relações raciais na cartilha do programa. “O MNU não foi chamado para discutir o projeto, mas nós estamos estudando e discutindo isso. O que eles querem dizer com ‘reconstrução do tecido social’?”, critica.



O coordenador da ONG Comissão de Justiça e Paz (CJP), Hemilson Rodrigues, também tem suas desconfianças sobre o projeto do governo. “Eles não usam o que a sociedade civil está produzindo sobre o tema da violência. Quem vai dar o curso de direitos humanos? São advogados. Nós, que vivemos na pele esse problema sabemos perfeitamente o que são os direitos humanos”, diz.

Caminhada Liberdade Religiosa é lançada com a presença de autoridades de líderes religiosos


Por Luana Assiz



O Coletivo de entidades Negras (CEN) lançou na última sexta-feira (28) a 3ª Caminhada Pela Vida e Liberdade Religiosa, no Bahia Othon Palace, em Ondina. O encontro reuniu 100 coordenadores de terreiros, 80 de Salvador e 20 de cidades do interior do Estado, além de representantes de comunidades do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. A meta dessas lideranças é agregar pessoas para a série de eventos que compõem a mobilização, entre os dias 22 e 25 de novembro.



Para ampliar as parcerias, uma das mesas de discussão foi composta pelo secretário Luiz Alberto (Secretaria de Promoção da Igualdade - Sepromi), a vereadora (PC do B-Ba) Olívia Santana, o Secretário Municipal de Reparação, Gilmar Santiago, o superintendente da Secretaria Municipal de Planejamento, Urbanismo e Meio Ambiente (Seplam), Ari da Mata e Maria Teresa, representante estadual do Programa das Nações Unidas para Desenvolvimento (Pnud). Também integra a lista o diretor do Instituto de Radiodifusão do Estado da Bahia (Irdeb), Póla Ribeiro. Os participantes assistiram ao vídeo produzido na 2ª Caminhada do Povo de Axé.



De acordo com Marcos Resende, coordenador geral da organização, as caminhadas anteriores trouxeram respostas concretas para a população: “Depois das caminhadas, o mapeamento e a reforma de alguns dos terreiros foram realizados”, afirma. Preocupada com a preservação da pluralidade religiosa, a Macota Valdina, do Terreiro Tanuri Junsara, lamentou a ausência de evangélicos nessas ocasiões – apenas dois estavam presentes no encontro. Macota Valdina também alertou para a discriminação entre as religiões de matriz africana: “Precisamos lutar contra o desrespeito entre os próprios povos de santo. Pessoas do candomblé, de umbanda, de centros de caboclo devem conviver em harmonia”, pregou.



No dia 22 de novembro, o CEN pretende reunir mil pessoas na Assembléia Legislativa, em sessão especial, na qual serão reivindicados direitos das comunidades negras. Nos dias 23 e 24, haverá um seminário, com a participação de representantes de todos os segmentos religiosos, para discutir questões que viabilizem a diversidade religiosa e o respeito aos diferentes dogmas. Ato principal da programação, a 3ª Caminhada encerrará as mobilizações das comunidades religiosas.

Entrevista com José eduardo Agualusa

Por Luana Assiz
“Há algo marcante entre Brasil e Angola”, diz Agualusa

O escritor angolano José Eduardo Agualusa esteve no Baobá Café Social para lançar o seu último romance “As Mulheres do Meu Pai”. O livro conta a história de uma portuguesa que parte para uma viagem ao sul da África em busca de suas origens. Autodenominado afro-luso-brasileiro, Agualusa defende a integração cultural dos países de língua portuguesa. A definição do autor se explica: escreve para jornais de Lisboa e de Luanda e já viveu no Rio de Janeiro e em Recife. “Há algo marcante entre Brasil e Angola: uma sensação de reconhecimento quando você anda na rua e vê as pessoas, que parecem estar nos dois lugares. E na verdade é um lugar só, estão todos no mesmo espaço”, afirma o escritor, que concedeu à repórter Luana Assiz, através do Portal SNA, uma entrevista exclusiva.
Luana Assiz - O que “As Mulheres do Meu Pai” tem de diferencial em relação aos anteriores?
José Eduardo Agualusa - “As Mulheres do Meu Pai” é bem diferente dos outros livros que escrevi, porque mistura ficção e realidade. É a história verdadeira da viagem que eu fiz pela África que vai alimentando a ficção do romance.

LA - O livro nasceu como roteiro para um filme, mas acabou tornando-se um romance. Como se deu esta transição?
JEA - É, a proposta inicial era um roteiro para um filme, mas quando eu comecei a escrever, vi que eu tinha nas mãos um bom material para romance, então dei seguimento à história.

LA - Você ainda tem planos de transformar essa história em filme?
JEA - O roteiro fica pronto em novembro, mas, na verdade, isso depende da diretora [Karen Boswall], porque para produzir um filme a gente precisa de recursos. É um projeto que depende de muitas outras coisas para acontecer.
LA - “As Mulheres do Meu Pai” aborda a busca de uma memória histórica, ancestral e, ao mesmo tempo, o rompimento de fronteiras para a construção de uma nova identidade. Como é construída a noção de identidade no romance?
JEA - Tem a história da Laurentina, que quer voltar às suas origens na África através da história do pai e ao mesmo tempo, existe a resistência do seu namorado contra a viagem. Na verdade, o livro traz várias identidades. Eu trabalho com o conceito de identidades múltiplas porque é assim que elas devem ser.

LA - Em 2002, você publicou o livro “O ano em que Zumbi tomou o Rio”, no qual você aborda as ações do narcotráfico nos morros cariocas, permeadas por uma consciência política, social e racial dos personagens. Isso é resultado da sua experiência no Rio?
JEA - É engraçado porque quando esse livro participou da Flip [Festa Literária Internacional de Parati], ninguém deu atenção ao tema do racismo, de que eu falava no livro. Se o Caetano Veloso não tivesse chamado atenção para isto, o assunto ia passar em branco. O problema do racismo no Brasil é totalmente ignorado pelas pessoas, é uma ferida intocável. Se você vai a um restaurante caro no Brasil, você não vê negros sendo servidos, como clientes, você os vê trabalhando. Eles estão sempre nos mesmos lugares. É algo que chama a atenção de qualquer estrangeiro. É bem visível a divisão racial aqui. O negro no Brasil não faz parte das elites. A população indígena, também, está totalmente excluída. Isso é um problema sério que o Brasil tem que resolver. Não sei como, mas precisa resolver. Em Angola os negros estão em todos os lugares: nos espaços políticos, nas empresas, em todas as classes.

LA - Ainda sobre esse livro, você faz alusões a ícones da História Brasileira, especialmente do Nordeste (Lampião, Euclides da Cunha, Antônio Conselheiro). Por qual motivo escolheu fazer essas citações?
JEA - Todo livro é uma alegoria, então eu busquei abordar personagens da história popular brasileira, daí surgiram esses nomes.

LA - Quais os autores brasileiros dentro desta temática que se tornaram referências para você?JEA - Gosto muito de Jorge Amado, que foi quem primeiro colocou o negro no centro das histórias. Também costumo ler Rubem Fonseca e João Ubaldo Ribeiro.

LA - Você acha que a literatura brasileira influencia muito os escritores africanos?
JEA - A influência já foi maior. Agora não tanto.

LA - Qual a principal diferença entre o Agualusa à época de “A Conjura” e o Agualusa que escreveu “As Mulheres do Meu Pai”?
JEA - (risos) Nossa! São quase vinte anos! Escrevi “A Conjura”, em 1989, mas acho que não mudou muita coisa. Meus temas de interesse e meus pensamentos permanecem na mesma linha, apenas tenho mais experiência quanto às técnicas de escrita.