
Por Luana Assiz
Um bate-papo sobre a trajetória da música na capoeira reuniu mestres, iniciantes e estudiosos, na Casa da Mandinga, para um bate-papo sobre a trajetória da música da capoeira. O encontro, organizado pela folclorista e musicóloga Emília Biancardi, teve a participação dos mestres Cobrinha Mansa, Acordeon, Boa Gente, Jogo de Dentro, Nenel (filho de Mestre Bimba), Lua, Onias e Itapoan, além de José Augusto Leal, superintendente do Forte Santo Antônio. Os convidados falaram sobre a influência musical herdada pelo convívio com os mestres Bimba, Pastinha e Canjiquinha na década de 60.
Os versos “o pouco com Deus é muito, o muito sem Deus é nada” fazem parte de uma das ladainhas de Canjiquinha, apresentadas por Mestre Lua. Ele também destacou as inovações artísticas, como elementos teatrais, trazidas pelo antigo capoeirista, que atuou nos filmes “Barlavento” (Glauber Rocha) e “O pagador de promessas” (Anselmo Duarte). Biancardi apontou suas famosas contribuições para os jogos e toques: “Muzenza”, “Samango” e o “Samba de Angola”. “Canjiquinha introduziu o Muzenza sob inspiração do candomblé de Angola, do qual ele fazia parte”, explicou a musicóloga.
Aluno de Mestre Pastinha, Onias lembrou as aulas teóricas do professor: “Ele mandava os alunos sentarem no chão e aí começava a falar sobre a capoeira, a música e os instrumentos”, recorda. Biancardi complementa que as ladainhas de Pastinha eram compostas em sextilhas, inspiradas nos romances portugueses. “Ao contrário do que muitos pensam, ele tocava berimbau apenas, não fazia floreios”, afirma.
A preocupação com a preservação das tradições foi a tônica do encontro. Segundo Itapoan, “a desinformação de alguns mestres pode trazer prejuízos enormes para a história musical da capoeira”, afirmou. Biancardi pondera que as composições atuais devem conviver com as antigas: “O jovem acha cafona cantar músicas como: 'Pomba voou, gavião pegou' e desconstruir essa idéia é tarefa dos mestres”.
Biancardi é fundadora do primeiro grupo folclórico da Bahia. Intitulado Viva Bahia, o conjunto nasceu em 1962, época em que a cultura afro-baiana era rejeitada pela sociedade. Uma das grandes contribuições do Viva Bahia para a capoeira foi a introdução do maculelê, trazido de Santo Amaro e, segundo a folclorista, erroneamente classificado como uma vertente da capoeira.

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