sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Projetos discutem a representação do negro no cinema

Por Luana Assiz
O cinema brasileiro vem experimentando novas formas de retratar personagens negros em suas histórias. Os trabalhos de cineastas como Joel Zito Araújo, Daniel Santiago e Rogério de Moura refletem essa mudança de concepção. Em paralelo ao começo da diversificação étnica nos filmes nacionais, multiplicam-se as iniciativas que visam à discussão sobre as formas de representação do negro no cinema. Uma delas é a Mostra de Filmes Afrouneb, idealizada pelo Núcleo de Estudos Afrouneb Salvador, do qual participam pessoas da universidade, de comunidades de terreiros e de outras instituições de ensino.

O projeto, interrompido em maio por conta da greve na UNEB e retomado em agosto, pretende trazer para a comunidade a discussão a respeito de questões polêmicas a partir da exibição de filmes. Em cinco sessões da mostra de filmes, foram exibidos: “Steve Biko – Um Grito de Liberdade”, “A cidade das mulheres”, “Kiriku e a Feiticeira”, “Verger: Mensageiro entre dois mundos” e “Hip-Hop com Dendê”. De acordo com o coordenador do projeto, Michel Freitas, será realizada uma mostra por semestre. “A data da próxima mostra depende da regularização do calendário da instituição após a greve”, afirma.

Com uma proposta semelhante, o cineclube Cinemafro promove sessões mensais, às sextas-feiras, na Fundação Internacional de Capoeira Angola (FICA). A documentarista Joice Rodrigues, o diretor de arte Angel Callero e a historiadora Izabel de Fátima formam a equipe do projeto, iniciado em julho deste ano. Os temas de debate são explorados em blocos de três filmes cada. O primeiro, que termina em setembro próximo, trata da relação entre Brasil e África, enquanto o segundo abordará as questões políticas em que está inserida a comunidade negra.

Rodrigues lembra que no início da história do cinema brasileiro, o papel do negro era interpretado por brancos pintados de preto. “Um reflexo do fato de que o cinema chega ao Brasil pouco depois do fim da escravidão. Hoje existe uma mudança sutil por causa da atuação dos movimento sociais”, analisa. De acordo com Freitas, a abordagem do personagem negro não mudou muito: “A maioria dos papéis dados a atores negros não tem utilidade nenhuma nos enredos das histórias”, critica. As discussões que vêm sendo travadas por Freitas e Rodrigues estão alinhadas com o trabalho do Dogma Feijoada, movimento de cineastas negros que pretende retratar de forma fiel a realidade do negro brasileiro, criado em 2000 por Jéferson De.
Novas histórias
Um história familiar, que narra os encontros e desencontros de duas irmãs no interior de Minas Gerais e poderia acontecer em qualquer cidade do mundo. No filme “Filhas do vento”, de Joel Zito Araújo, os conflitos vivenciados pelos personagens, todos negros, em nada se parecem com os espaços ocupados por sujeitos estereotipados, tradicionalmente interpretados por atores negros nas produções audiovisuais brasileiras. Efeito de uma mudança progressiva na concepção cinematográfica nacional, “Filhas do Vento” é um dos fortes exemplos de construções multifacetadas de personagens negros no cinema contemporâneo.

Do mesmo autor, “Vista Minha Pele” conta uma história invertida da realidade brasileira, em que o negro faz parte da classe dominante, enquanto o branco é quem amarga as heranças da escravidão. É a partir dessa perspectiva que nasce a amizade entre uma menina negra, pertencente a uma família rica, e uma garota branca e pobre, discriminada por seus colegas na escola onde estudam. Um dos questionamentos da história é a ausência de debates sobre questões raciais no ambiente escolar, eixo principal do encontro realizado no Conselho Regional de Psicologia, na última terça-feira (21).

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